Howard Gardner

1.1 -Breve Biografia de Gardner

Seus pais Ralph e Hilde Gardner, judeus, fugiram da Alemanha e chegaram nos Estados Unidos em 1938.

Gardner nasceu em 11 de julho de 1943 e cresceu na cidade de Scranton, mediana cidade do nordeste da Pensylvania. Foi excelente e promissor pianista, mas parou seus estudos musicais. Em setembro de 1961 ingressou no Harvard College onde estudou história, sociologia e psicologia.

Trabalhou com Erick Erikson. Depois de um ano de pós-graguação na London School of Economics, onde estudou filosofia e sociologia. Completando seu doutorado teve oportunidade de trabalhar com o neurologista Norman Geschwind.

Tornou-se professor de Cognição e Educação na Harvard Graduate School of Education em 1968. Produziu inúmeros livros e outros mais como co-autor, todos voltados no sentido de explicar e compreender o pensamento humano, com foco no desenvolvimento e falhas das capacidades intelectuais humanas.

Fundou o Projeto Zero, em Harvard University, grupo dedicado ao estudo de processos cognitivos focado na criatividade e artes. Com a publicação de Frames of Mind em 1993 ganhou expressão internacional. (http:// paginas.terra.com.br/educação/azevedofrota/Biografia.htm)

1.2 - Inteligências Múltiplas

Gardner desenvolve a Teoria das Inteligências Múltiplas e contesta os testes de Q.I. (Quociente Intelectual) desenvolvido pelo psicólogo francês Alfred Binet, em 1900, “para separar crianças com retardo e classificar crianças adequadamente em sua série correspondente” (GARDNER, 2002) e utilizado posteriormente para medir a inteligência de soldados após a I Grande Guerra Mundial. A sua contestação volta-se, principalmente, para o enfoque exclusivo das abordagens lingüística e lógico-matemática privilegiados nos testes de Q.I.

“... as abordagens de QI, a piagetiana e a de processamento de informações, todas focalizam um determinado tipo de solução de problemas lógico ou lingüístico; todas ignoram a biologia; todas falham em lutar corpo-a-corpo com os níveis mais elevados da criatividade; e todas são insensíveis à gama de papéis relevantes na sociedade humana. Conseqüentemente, estes fatos geraram um ponto de vista alternativo que focaliza precisamente estas áreas negligenciadas.” (GARDNER, 2002, p. 19)

GARDNER (2002, p.46) entende por inteligência “a capacidade de resolver problemas ou dificuldades genuínos que ele encontra e, quando adequado, a criar um produto eficaz – e deve também apresentar o potencial para encontrar ou criar problemas – por meio disso propiciando o lastro para aquisição de conhecimento novo.

Gardner cataloga sete inteligências: lógico-matemática, lingüística, musical, corporal-cinestésica, espacial e pessoal (esta última consolida a interpessoal e intrapessoal).

1.3 - Inteligências Intrapessoal e Interpessoal

Inteligência Intrapessoal é a capacidade de acesso à nossa própria vida sentimental e toda gama de afetos e emoções, identificando-os e estabelecendo bases de reflexão para entender e orientar o nosso comportamento. É o que Gardner chama de “senso do eu”, quando o indivíduo examina e conhece os seus próprios sentimentos.

Um sentimento emergente de ‘eu’ prova ser um elemento chave na esfera das inteligências pessoais, um elemento de importância dominante para indivíduos do mundo inteiro. Embora um senso desenvolvido de ‘eu’ seja comumente visto como uma manifestação requintada da inteligência intrapessoal, minha pesquisa levou a uma conclusão diferente. A ampla variedade de ‘eus’ encontrada ao redor do mundo sugere que este ‘senso’ é melhor pensado como um amálgama que emerge de uma combinação ou fusão do nosso conhecimento intrapessoal e interpessoal. As esmagadoras diferenças nos sensos de ‘eu’ ao redor do mundo refletem o fato de que a fusão podem ocorrer de maneiras amplamente divergentes, dependendo do aspecto da pessoa (ou das pessoas) que por acaso sejam acentuadas nas diferentes culturas. (grifo nosso) De modo correspondente, no que segue usarei o termo senso de eu para referir-me ao equilíbrio (grifo nosso) atingido por cada indivíduo – e cada cultura – entre os estímulos de ‘sentimentos internos’ e as pressões de outras pessoas

Um senso de "eu"; desenvolvido com freqüência aparece como a mais elevada conquista dos seres humanos, uma capacidade corolária que suplanta e preside sobre outras formas mais mundanas e parciais de inteligência.” (GARDNER, 2002 p.188)

Fica muito claro, então, como Gardner enfatiza a relevância do autoconhecimento, o “senso de eu” em outras palavras no campo dos sentimentos internos, afirmando também que “quanto menos uma pessoa entender seus próprios sentimentos, mais cairá presa deles”.

A inteligência interpessoal olha para fora, em direção ao comportamento, sentimentos e motivações dos outros.

Em seu livro Estruturas da Mente – A teoria das inteligências múltiplas, Gardner faz uma análise evolutiva das inteligências pessoais (intra e interpessoais) desde a fase “bebê” até atingir o senso de “eu” maduro. Reconhece, portanto, a influência interpessoal na formação intrapessoal, desde os primeiros instantes da vida até a idade madura quando a personalidade está praticamente consolidada.

Levanta Gadner uma interessante questão:

Há uma outra concepção que enfatiza muito mais o papel formativo (grifo nosso) de outras pessoas no senso de eu e, conseqüentemente, permite pouco crédito à noção de um eu autônomo (grifo nosso).

De acordo com esse ponto de vista, um indivíduo será sempre e necessariamente um conjunto de eus, um grupo de pessoas que perenemente reflete o contexto que por acaso habita em qualquer momento específico.

Ao invés de um ‘eu central’ que organiza o pensamento, comportamento e metas, a pessoa é melhor pensada como uma coletânea de máscaras relativamente diversas,nenhuma das quais assume precedência sobre as outras e cada uma das quais é simplesmente chamada a serviço quando necessária e retirada quando a situação não mais requer a ‘cena’ muda para um outro lugar. Aqui a ênfase do ‘senso de eu’ incide muito mais pesadamente no conhecimento e know-how interpessoal.” (GARDNER, 2002 p.195)

Podemos, a partir de então, nos remeter a interessantes reflexões. Afinal temos ou não temos uma identidade? Ou somos apenas reflexo de um grupo de pessoas e de uma cultura, uma sociedade? Nossas ações e sentimentos são conquistas pessoais ou uma resposta do que grupos ou determinada comunidade pensa ou sente a nosso respeito?

Não podemos negar a forte influência que recebemos da base materna desde a vida intra-ulterina, e as influências dos personagens que vão sendo acrescentados na nossa vivência do dia-a-dia.

Exercem poderosos papéis na formação de nossa personalidade, formação cultural, da mesma maneira que também participamos deste contexto e oferecemos direta ou indiretamente um determinado grau de influência com a nossa maneira de “ser”: nossas ações, nossos pensamentos, nossos sentimentos... significam a nossa individualidade, o nosso “eu” em processo de interação com a sociedade.

Essa individualidade sofre mutações, evolui? Sim, pela experiência e pelo autoconhecimento, ou como diz Gardner, o “senso de eu”.

Inspiradamente Gardner afirma:

O que precisa ser enfatizado é a possibilidade de discernir as feições principais de ambas faces do desenvolvimento – o foco sobre os outros e o domínio do papel social, bem como o foco no eu e o domínio da própria vida pessoal – em todo o indivíduo normal. As ênfases podem diferir, mas o fato de que cada um é um indivíduo singular, que ainda deve crescer num contexto social – um indivíduo de sentimentos e empenho, que deve confiar nos outros para fornecer as tarefas e julgar suas conquistas – é um aspecto inelutável da condição humana e firmemente enraizado nos membros da nossa espécie.

Quanto menos a pessoa entender os sentimentos, as respostas e o comportamento dos outros, mais tenderá a interagir inadequadamente (grifo nosso) com eles e, portanto, falhará em assegurar seu lugar adequado dentro da comunidade maior.” (GARDNER, 2002 p.197)

O indivíduo cresce em sociedade sem perder a sua individualidade. Acreditamos que o acaso não existe e ninguém ocupa determinado lugar, vive em determinado ambiente sem uma finalidade superior. Seja no alvoroço de uma grande cidade, seja na tranqüilidade de uma cidade pequena, a pessoa sempre encontrará desafios a enfrentar e encantos para se deslumbrar.

Mas essa reflexão também vale para outros ambientes. O familiar, o escolar, o profissional, o social... recebemos o que damos. A sensação de felicidade ou infelicidade de uma pessoa em determinado ambiente privilegia em primeiro lugar o indivíduo e o que ele deduz e sente intimamente, seus valores (que possui até este momento).

Assim, a percepção do mundo exterior que nos cerca é uma imagem precisa de nosso conteúdo intrapessoal!

Não acredito em adaptação forçada, como brilhantemente colocou Abraham Maslow (1969, p. 8): “O que devemos pensar de um escravo bem-adaptado? (BAR-ON, 2002 p. 83)

Trata-se, no caso, de uma ausência total de opção individual. Uma coerção abominável.

Mas, lamentavelmente, existem muitas pessoas nessas condições: escravidão econômica, escravidão do poder, escravidão da beleza, escravidão das aparências... os quais denomino de escravidões voluntárias, que submetem a sua individualidade à força da ambição e conveniência. As relações interpessoais, nesse caso são exclusivamente interesseiras e manipuladoras, e a submissão é dissimulada!

Curiosamente como ficam as emoções interpessoais? Dado que são esses os valores representados na comunidade, está tudo bem. Mas, e as relações intrapessoais? Depende do grau evolutivo de cada um. Uns vão se sentir no pico da montanha da vitória, outros... no fundo do poço. Do ponto-de-vista evolutivo quem cresceu mais nesse processo: o que está no pico da montanha das ilusões ou aquele que está no fundo do poço da desilusão? (A desilusão é ótima: nos traz à realidade... só se desilude quem se ilude!)

Essas ponderações são escritas para argumentar que achamos extremamente relevante a avaliação contínua das Inteligências Intrapessoais e Interpessoais, como propõe Gardner, para uma auto-reflexão mais consistente em busca do “senso de eu”, tanto no âmbito de nossa intimidade como no âmbito de nossos relacionamentos sociais. Ter consciência, saber porque sentimos essa ou aquela emoção passa a ser uma grande conquista intrapessoal.